Percepção corporal: imagem distorcida

O corpo perfeito existe? Talvez a melhor resposta para essa pergunta seja um pouco tola. A resposta é que que o corpo perfeito é simplesmente o que você acha que é perfeito. E a perfeição certamente inclui muitas imperfeições. Quem nunca achou aquele nariz torto charmoso, aquele cabelo bagunçado fashion?

Pois bem, mesmo assim, temos a mania de cismar com o nosso corpo e colocar milhares de defeitos em vez de exaltar nossas incríveis e muitas vezes raras qualidades!  Percepção corporal distorcida tem nome e pode se tornar uma doença séria: a dismorfofobia.

Tenha em mente que o que te define não precisa ser seu corpo, mas sua atitude. Outros fatores, como seus amigos, sua carreira, o lugar de onde você veio e todo um conjunto de elementos da sua vida são o que realmente definem. Na verdade, o que escolhe o que te define é você!

Bem, não é o que vemos na TV, certo? Não é o que vemos no Instagram das musas fitness, onde cada clique de barriga sarada é um golpe na autoestima e um motivo a mais para sentir insegurança em relação a sua aparência e pensar: “meu deus, esse mês, tenho que perder 5 quilos urgente”.

Mas, esperem! Não é assim funciona na realidade! Se conhecermos as pessoas reais, vemos que, apesar do padrão, o que um acha bonito o outro pode não achar. Ora, vamos ver o exemplo das modelos tradicionais e magras de passarela. Quem nunca ouviu alguém dizer que elas são magras demais? É uma questão de gosto. Gosto é pessoal.

Mesmo assim, um bombardeio midiático de um determinado padrão estético impacta a percepção corporal e a autoestima de homens e mulheres. Isso acontece com você? Saiba mais sobre essa doença, a dismorfofobia, e saiba que tem tratamento! Vamos conhecer mais sobre esse assunto com o psicólogo Adauto Jr?

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O culto ao corpo perfeito

Segundo o psicólogo Adauto Jr.: “O termo dismorfofobia, palavra grega que significa feiura, na medicina, está ligado a pessoas que não enxergam ou aceitam o corpo que têm e olham para si de forma distorcida, potencializando ou inventando sistematicamente defeitos e sinais naturais do corpo – o tamanho do seio, queixo, nariz, dentes etc., esclarece.”

Isso tudo, claro, vem da sociedade em que vivemos, elucida Adauto  “O culto exagerado ao corpo perfeito, a submissão aos padrões estéticos, e a busca pela saúde infinita tornaram-se uma marca do mundo moderno; temos, de um lado, o desenvolvimento saudável das áreas e especialidades que atuam na promoção da saúde, trazendo ganhos sobre a longevidade e a qualidade de vida, assim como para a beleza”, relata.

“De outro lado, acompanhamos um aumento crescente do ônus pela busca desmedida da perfeição corporal. Uma busca motivada por um padrão de corpo “irreal”, disseminado nas mídias e distante da realidade humana, que tem suas singularidades, limitações e diferenças culturais”. Segundo o psicólogo, até mesmo essas diferenças culturais, hoje são vistas como “imperfeições”, diz.

A História da beleza na Grécia

Para fazer um panorama de como vemos a beleza, vamos voltar no tempo com o psicólogo Adauto Jr., que dá como exemplos mitos gregos.

“Desde o início dos tempos, a beleza sempre foi almejada e admirada, condição de grande influência nas relações sociais. Já na antiguidade, encontramos uma leitura da importância da imagem corporal sobre a condição humana” diz.

“Cito duas lendas Mitológicas ligadas ao tema beleza:  na primeira temos o Mito da garota de Esparta que sofria pelo valor estético de sua família e consequentemente dela, que era levada pela família ao templo todos os dias para se livrar de sua condição a “feiura”. No segundo mito grego, temos o Deus Pan: filho de Zeus que, apesar de ter forte libido e ser galanteador e talentoso, tinha aparência assustadora, que levava aos pastores ao medo súbito ao ver sua imagem, daí o termo Pânico (usado em diagnósticos de psiquiatria e psicologia). Ilustrando um pouco do conceito e a importância da imagem nos arquétipos humanos”, conta Adauto.

“O fato é que o distanciamento entre o corpo real e o corpo imaginário, pois a fantasia sempre nos fala do desejo, tem aumentado a prevalência das doenças mentais e emocionais” constata o psicólogo.

Um mundo que não inclui o singular

Do sofrimento mental leve até o severo, esta doença impacta na vida de quem se sente mal com a própria aparência e às vezes isso tem efeitos devastadores.

“Temos doenças psiquiátricas e sofrimentos psicológicos, como angústias circunstanciais e patológicas, depressão, ansiedade, Pânico, quadros de dismórfofobia. Incluo a anorexia e vigorexia (síndrome do corpo perfeito), hipocondrias, quadros delirantes e deliróides em relação a autoimagem, questões narcísicas, solidão, dificuldades de relacionamento, prejuízo na área profissional, prejuízo na esfera afetiva, somatizações, entre outras condições clínicas” enumera Adauto.

“Estes indivíduos perderam seu equilíbrio emocional, tendo como pano de fundo a pressão que a busca da beleza irretocável e a perfeição de um mundo moderno impositivo e competitivo, que, de certa forma, não incluem o singular” explica.

“Estes sintomas e diagnósticos são queixas cotidianas no atendimento de pacientes em consultório; alguns pacientes que procuram atendimento chegam por conta própria movidos pela angústia e sofrimento, outros são encaminhados de colegas médicos ou psicólogos, mas uma grande parte das pessoas adoecidas ou em sofrimento neurótico pela insatisfação com a percepção corporal não procuram atendimento especializado”, adverte.

Portanto, se você tem um problema com sua autoimagem, não hesite em procurar ajuda. Isso é muito normal, ainda mais nos dias de hoje, onde as doenças relacionadas ao estresse de viver em uma. Nós, do Exercício em Casa, estamos aqui para te apoiar nisso e dizer que mesmo você estando acima ou abaixo do peso, você é linda!

Devemos fazer exercícios não só porque precisamos perder 4 kg para caber no vestido, mas sim porque nos amamos e queremos ter uma vida saudável! Temos o direito de ter uma percepção corporal saudável, não importa o nosso peso. 

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Tratamento da percepção corporal distorcida

“É de suma importância que os profissionais da área da saúde, ao lidar com o corpo, sejam médicos, clínicos gerais, especialistas como dermatologistas e endocrinologistas, cirurgiões, educadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, profissionais da área estética, área artística, entre tantos outros, consigam identificar situações de adoecimento de seus “pacientes” e assim fazerem as devidas orientações e encaminhamentos para o tratamento emocional coadjuvante”, afirma Adauto.

“O indivíduo insatisfeito com o corpo e acometido emocionalmente por isso tem um prejuízo na sua vida biopsicossocial, e o tratamento especializado na área mental depende de uma avaliação criteriosa de quais são as condições e dinâmicas presentes”, explica.

“Em geral é feito o mapeamento da parte mental saudável e da parte adoecida, tentando identificar conflitos psíquicos e as causas psicogênicas que levaram às crenças disfuncionais sobre o corpo” aponta.

“Dependendo de cada caso e do momento do tratamento, lançamos mão de orientações para angústias circunstanciais, psicoterapia de orientação dinâmica, na minha linha de trabalho a análise psicodramática, e também em alguns casos o uso de medicações em baixas doses e por tempo limitado”, relata .

“Concluindo: é de extrema importância o cuidado sobre sintomas de insatisfações ligadas à imagem corporal, com o devido tratamento e orientação, para a pessoa possa desfrutar de uma vida saudável em relação ao seu corpo e mente, possibilitando o desenvolvimento pessoal com maturidade, e aceitação do Eu e de suas diferenças humanas, alteridades (saber se colocar no lugar do outro)” finaliza Adauto.

* Matéria com base no artigo do psicólogo Adauto Jr. “Percepção da autoimagem corporal, uma leitura psíquica e cultural”

Percepção corporal: imagem distorcida

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